Dia do Orgulho dos Indecisos

Chegou ontem ao gabinete do prefeito da cidade de São Paulo um requerimento de autorização para o Dia do Orgulho dos Indecisos e pela realização de marcha em mesmo dia. O texto dizia o seguinte:

“São Paulo, 19 de setembro de 2011

Boa tarde excelentíssimo senhor prefeito da cidade de São Paulo.

Venho, por meio deste, pedir a autorização para a criação do Dia do Orgulho dos Indecisos e que o senhor libere também a gente pra marchar pela avenida Paulista ou, pelo menos, que deixe a gente se reunir por lá pra conversar. Sabe o que é, seu prefeito, é que ontem eu fui na marcha do Dia do Orgulho Hétero. Eu fui meio dividido, sabe? Com uma bíblia numa mão, uma lâmpada fluorescente na outra, de camiseta preta com abadá por baixo. O abadá era só no caso dos héteros resolverem não respeitar tanto assim a moral e os bons costumes. Eles fazem isso também, sabia?

Fui pra Paulista e fiquei no ponto mais alto, numa escada grandona, olhando. No começo passaram uns pastores, uns bispos ou uns padres. Eles são um pouco parecidos e eu não sei dizer bem de que religião eles eram. Sei só que falaram umas coisas bonitas sobre o bem e o mal. Era bonito mesmo o que diziam, mas esses caras  passam rápido pelos nossos olhos e não dá pra ver direito se eles respeitam também a moral e os bons costumes ou dizem não ao satanás quando saem da nossa frente.

Depois que eles passaram por mim, veio a festa. Uma música alta, não dava pra ouvir nada. E era tanta gente que não dava pra ver ninguém direito na massa. Achei que devia descer um pouco a escada pra chegar mais perto e, aos poucos, fui vendo os rostos. Seu prefeito, o senhor desculpa falar, mas era um tal de gente dando uns beijos na boca, passando as mãos nas coisas e voltando a andar! Eles nem se falavam muito não, sabe? Só paravam, cutucavam, beijavam e voltavam a marchar. E as roupas das mulheres? Cada shortinho minúsculo, cada decote, tanta pele de fora! Tinham uns caras sem camiseta também. Mas, como quando eles se encontravam e se esfregavam cada um era de um sexo, acho que a moral e os bons costumes estavam preservados.

Resolvi entrar na avenida e participar da festa. Comecei a marchar junto. Eu estava andando na multidão, logo atrás de uns homens fortes, carecas, todos vestidos de preto. Eles eram tão grandes, tão musculosos, com uma bota com saltinho que os deixavam ainda maiores, com um ar tão másculo de testosterona acumulada. A gente andava e dizia umas pornografias heterossexuais quando o trio elétrico começou a tocar Lady Gaga. O senhor conhece Lady Gaga, seu prefeito? Todo mundo se olhou por um minuto e parou pra dançar. Com uns passinhos tímidos pra direita e pra esquerda, quase sem levantar as pernas ou os braços, sem quebrar a cintura, sem se movimentar ou liberar muito, com os músculos todos travados e tensos e reprimidos, a verdade é que eu nunca vi uma Lady Gaga tão chata. E acho que todo mundo achou isso, começou uma vaia sem fim, até o Dj trocar a música por uma coisa mais tradicional. E continuamos andando.

Fui atrás dos caras grandões. Achei tão bonito, sabe? Aqueles homens juntos, tão distantes uns dos outros, mas alguma coisa parecia que os atraia lado a lado. Andar é bom pra pensar, faz a gente viajar. E comecei a pensar e refletir e me lembrar de algumas coisas nada a ver. Pensei que tinha que voltar a comer proteína e tomar suplemento e voltar para a academia pra ficar que nem esses caras fortes. E poder fazer o que eu quiser. E, se não der pra fazer o que eu quiser fazer, eu bato em alguém até conseguir. Risos. Pensando em voltar pra academia, eu me lembrei do meu professor. Um dia a gente se trocou lá no vestiário juntos e eu lembro que pensei “Esse é o corpo que quero ter”. Ai, seu prefeito, o senhor não me leva a mal não, eu tenho namorada, só fiquei com mulher a vida toda, gosto muito de fêmea, sinto um tesão danado, mas o senhor representa minhas vontades, eu votei no senhor pra isso, preciso ser sincero. Acho que tem que conhecer meus desejos. No começo, era só admiração, eu queria ser como meu professor. Mas o senhor sabe como é, não é mesmo? Qual a graça de ser alguma coisa? Hoje em dia, o que pega é o que você tem… e eu comecei a querer ter ele, possuir ele, me alimentar dele.

Comecei a me sentir meio bobo quando percebi isso. Eu lá, no meio daqueles caras fortes e violentos, tendo este tipo de pensamento. Aí me veio uma dúvida. Será que no meio daquela gente toda heterossexual assumida, tinha algum simpatizante? Sim, porque aquela Parada Gay é para gays, lésbicas, transexuais, travestis, transformistas e… simpatizantes, não é? Gente que não é nada disso, mas simpatiza com os outros. E lá? Só podia ir quem fosse 100% hétero? Se alguém me perguntasse o que eu estava pensando naquele momento, o que eu diria? “Mas eu sou simpatizante, porra!”. Melhor não. Acho que eu daria um soco se fosse homem ou um puta beijo se fosse mulher e ia embora. Como ninguém perguntou, resolvi só ir embora.

No caminho, sentado no metrô, fiquei pensando em tudo aquilo. Foi aí que eu me toquei que se eu preferia vir pra Paulista mostrar pra todo mundo o quanto eu gosto de fazer sexo com a minha mulher ao invés de ficar em casa fazendo sexo com a minha mulher, bom, alguma coisa devia estar errada.

Por isso resolvi fazer esta carta, seu prefeito, pedindo pro senhor o Dia do Orgulho dos Indecisos. É que os héteros têm um dia, os gays têm a Parada. E nós, os indecisos? Sim, os simpatizantes podem ir na Parada – ainda não sei direito se podem ir na marcha dos héteros, não sei pra quem perguntar. Mas, os indecisos? Se a gente precisa separar cada grupinho em um dia, mesmo se esse grupo for a maioria, mesmo se forem os dominantes e tal, se o mundo vai ser separadinho por tipo de preferência, como ficam os que não sabem direito o que querem? Me sinto excluído,  seu prefeito!

Aguardo ansiosamente sua resposta,

Atenciosamente,

Um cidadão qualquer”

2 Comentários

Arquivado em Maria Giulia Pinheiro

2 respostas para Dia do Orgulho dos Indecisos

  1. Magiu sempre genial. Adorei o texto.

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