Fujo. Sei que fujo. Sei que não é chuva ou preguiça, é fuga. Sei que esta dor de cabeça não é causa, é consequência. (Talvez eu tenha criado a dor de cabeça, a preguiça e a chuva).
Aí me dá uma angustia de não conseguir enfrentar de novo. De saber que não é racional, que não é emocional, não é espiritual, é existencial. Eu não consigo enfrentar porque nós não existimos mais e eu não quero ver porque você não existe mais e ver é comprovar que você existe e eu também, mas nós não e que eu existo além de você existir ou não e que não dependo de você para ser.
Já passou, já acabou e eu não consigo ver você. Ver você significaria romper esta fantasia e minha dor de cabeça é forte demais pra eu comprovar a existência do tempo hoje. Eu prefiro ver a chuva, ouvir piano, ler algo que me massacra por dentro – o acaso é cruel e me faz ler o que me massacra por dentro quando eu escolho ter dor de cabeça para não ler você e não ser massacrada por dentro.
Aí me dá fome.
Como o tempo que acontece simultâneo, sei que você está lá e todo mundo também, talvez esperando por mim, talvez sabendo que eu não vá, talvez me esquecendo. Mas ninguém me procura e eu não procuro ninguém porque sei que neste momento simultâneo alguém vai olhar pra mim e dizer: “não veio”. Se eu fosse alguém olharia pra mim e diria: “e vocês?” e eu riria baixinho, diria que estou melhor assim – e todos nós sabemos que sou muito melhor que você e estou melhor assim. Você não é ninguém e eu serei alguém, todo mundo sabe disso melhor do que nós dois que já sabemos disso bem.
Mas você é capaz de estar aí e eu não.
Aí me dá fome das coisas que eu não vivo por ter medo de ter fome.
E seria tudo tão mais simples se você finalmente não existisse mais. Se você tivesse sido o que é a minha sensação do que você foi: nada. Se você fosse personagem. Se você fosse jogador. Mas com você eu não sei jogar, o tabuleiro vai embora e fico molhada na chuva que já nem está mais chovendo, com dor de cabeça, preguiça e fome – esperando você que não está onde estou porque sei onde você está.
Fujo deste reencontro para não correr o risco de lhe encontrar de novo, para não cair na armadilha de achar que você é qualquer coisa de especial. Você é tão banal como todos os outros de quem digo gostar só para fugir para mim mesma do não saber gostar de ninguém banal. Sua política banal, seus amigos banais, seus gostos banais, seus pensamentos banais, suas conversas banais, suas banalidades todas escancaradas em cada detalhe. Não quero ver para não perder tempo de achar que você não é banal.
Ou não quero ver para não comprovar que você é banal e que já acabou. E que já posso ir embora.
Talvez eu devesse ver você com menos chuva, preguiça, dor de cabeça e fome.
Talvez você realmente não exista mais.
Talvez eu deva ver você hoje. E foi o que eu fiz. Talvez eu ainda seja aquela pessoa que pensa demais, mas não deixa de fazer demais. Tomei coragem e banho, cheguei. Você não. Você não foi, inventou desculpas – todo mundo sabia que era desculpa. Graças ao acaso, à Deus, às nossas escolhas ou a qualquer coisa que nos tenha feito o que somos agora, eu não lhe conheço mais. Você já não existe, nem eu, muito menos nós.