Novembro 25, 2009

Vizinhança

O vizinho tocou a campainha para reclamar do silêncio. Disse se incomodar sem os musicais no quintal, sem os poemas declamados, as peças improvisadas, sem as festas, sem vinho, sem víscera, sem Dionísio.

Pedi que esperasse mais um pouco, que não tardava a inspiração chegar. Pedi paz, ciência.

Ele ameaçou chamar a polícia.

Prometi resolver.

Novembro 15, 2009

Crispo-me

Sou leviana, sei que sou.
Clamo a maior altivez enquanto piro com meu próprio crepito, em vão.
Enleada, finjo estar completa.
Sou o monturo do mundo, com um sorriso na boca.
Uma marafona à toa que, lacônica, vocifera sem sentido.
Sou galega, impetuosa e amontoada de sevícias.
Transijo meu próprio entrevar, com ternura.
Essa pungente presepada me persegue.
Bulo meus próprios espólios.
Estribilho meus falsos alentos.
Espero desesperadamente por meu peremptório desfecho: nada.
Sinto que há de ser algo de fora para dentro.
Afinal, aqui, tudo soçobra de forma avassaladora.
Reteso-me.
Procuro a mim mesma.
O inexorável está aqui.
Hei de devassar-me.

Magiu Pinheiro

Novembro 14, 2009

O Convento: Afirmar pela negação

Não acredite no que lê.

Não serei coerente.

Dou voz aqui a todos os eus que tenho, sejam eles meus ou não.

Não sou uma só, ainda que sozinha.

Não tenho a pretensão de converter ninguém.

Sei que estou condenada à incompreensão, pouco importa.

Além do que, não sou fácil, muito menos simples.

Não me entregaria assim, tão obviamente.

Sei separar muito bem o público do privado.

(Ao menos me esforço para isto).

Que o público não seja privado, entretanto.

 

 

Para recomeçar, rever as metas, os princípios, o contexto e as motivações.

Novembro 10, 2009

1 + 1 = 1 + 1

Ela não estava interessada em combinar com ninguém. Aliás, nunca esteve. Era típico dela a solidão e a independência. Chegava até a ser indiferente a tudo o que não concordava. Só o que é humano chamava sua atenção – o que não inclui o sobrenatural, muito menos os sentimentos desinteressados.
Há aproximadamente seis meses, porém, algo avassalador mudara em seu dia-a-dia. De repente, tornara-se fiel a alguém que não ela própria. Nada lhe tinha sido imposto. Se o fosse, provavelmente, não aceitaria. Não obedecia àquilo com o qual não concordava. Era a ética em pessoa, mas calcada em sua própria moral. Seu maior prazer era fazer com que as pessoas a amassem mesmo não a possuindo, ou, ao menos, a compreendendo.
Ele era o outro. Gentil, atencioso, atraente, inteligente. Quando quer, sabe tratar um ser humano como ninguém mais. Insensível, egoísta. Ser amado é o fim que justifica qualquer traição. Traí quem o ama, por saber ser amado, não amar. Sedutor, ah, como é sedutor. Não é o mais bonito, o mais genial ou o mais simpático. Sabe conquistar. Já esteve dentro das mais belas e poderosas mulheres. É uma mistura de James Bond, James Dean, Apolo e Baco. É o mais homem de todos os homens. Mais humano de todos os humanos. Sabe portar-se em qualquer ambiente como um nativo. Sabe fazer a mais insensível das mulheres amá-lo, como o fez. Por prazer.
Era um dia de calor e luz intensos. O sol combinava com seus sorrisos. Passaram a tarde de lugar em lugar, fingindo não terem o que fazer. Tinham, claro que tinham, mas estar ao lado um do outro era mais válido do que cumprir qualquer obrigação. Eles, juntos, eram do tipo de casal que não deixa o urgente ultrapassar o importante.
Sete horas. Era preciso partir. Ele resolveu ir até a estação dela e depois voltar. O metrô estava cheio de rostos cansados. Ficaram os dois em pé.
- Você acredita em espírito? – perguntou, sem que ela conseguisse entender algum sentindo em sua fala.
- Não.
- E se alguém lhe contasse que viu um? Que os vê o tempo todo? Que está vendo um agora?
- Acharia que é esquizofrênico, maluco, doido. Que sua imaginação projeta o que ele quer e ele, coitado, acredita.
O louco sorriu. Psicopata, não sensitivo. Com a mão esquerda, tirou as duas dela do apoio metálico superior e as colocou em volta de seu pescoço. Passou a mão por sua cintura. A direita continuava estática, a segurar com força o apoio.
Estavam na posição clássica do super-herói que salva a mocinha de uma queda abrupta. Ela nunca se sentira tão segura. O trem freou bruscamente, empurrando-a para mais perto de seu ombro. Ele aproveitou este segundo de intimidade intensa para comprimir ainda mais seus corpos. Bem ao seu ouvido, como deve ser, disse:
- Eu amo você.
Nenhum dos dois tinham sido tão eles mesmos até este momento. Ela, por acreditar que existe o amor e que ele e a liberdade caminham juntos, como dizia em teoria. Ele, por conseguir, mais uma vez, conquistar alguém.

Magiu Pinheiro

Outubro 15, 2009

Gaudério

Despi-me lentamente, peça a peça. Não o fazia por ele. Muito menos por ela. Fazia-o por mim. Não era egoísta, apenas não os via a minha frente. Era só eu e o espelho de seus olhos.
Sentia o prazer mais límpido. O prazer de ser eu. O prazer do momento em si. Todas as inseguranças pueris partiam em menos de segundos. Lá estava eu, nua de frente ao meu mais delicioso desafio.
Suspiro.
Murmúrio.
Entusiasmo.
Sussurro.
Gemido.
Exultação.
Deleite.
Meu gaudério finalmente acontecera.

 

 

Magiu Pinheiro

Setembro 10, 2009

Paixão em dois pulsares

Diástole. Meus olhos encontram seu rosto.
Sístole. Seus olhos fitam o infinito.
Diástole. Meus olhos não desistem.
Sístole. Seus olhos não resistem.

Agosto 18, 2009

Céu de domingo

Eu e você, no deck da piscina, contando as estrelas que ainda não apareceram no céu de domingo a tarde. Eu e você.

Há algum tempo não nos relacionaríamos. Não acreditava que valesse a pena. Literalmente, valer a pena. Convenhamos, conviver é um suplício.

Você me conquistou. Tem um algo a mais que faz adormecer minha misantropia. Isto não basta, porém. Há tantas pessoas que também o fazem e que mantenho distância! Aquela menina com quem não tenho assunto, o meu professor, o cara da banca aqui em baixo, o taxista velhinho da esquina, aquela colega baixinha com quem estudei anos e já não lembro o nome.

Você é mais que interessante. Isso! Você me encanta! Me faz pensar, me traz alívio, me traz angústia! Você faz com que me sinta viva! Respeita minha solidão, respeito a sua. Não grita, não especula, não pergunta.

Desligo o rádio e sua voz e poesia vão embora. Fico só, fitando as nuvens que cobrem nosso céu de domingo.

Agosto 14, 2009

A beleza feminina

Constantemente um amigo pede que eu recomende uma música para ouvir enquanto lê os posts que escrevo. Quando comecei a escrever este, pensei logo: Lily Allen, The Fear. Só no meio texto percebi que não era uma boa escolha. Esta música já é uma crítica, já tem tese e argumento e não é isso que quero. Não construí ainda uma opinião, tenho apenas dúvidas e reflexões soltas. Vou recomendar, então, Chic Chic da Kelly Key, isso mesmo, Chic Chic da Kelly Key. Por ser sincera e por ser exatamente este o tipo de discurso sobre o qual quero falar.

Há tempos uma brincadeira que faço vem me incomodando. Vou fazer mea-culpa e assumir que não tinha notado o quanto machista estava sendo até ouvir a mesma piada direcionada a mim. Consiste em algo do tipo “Ah, ela é burrinha, mas é bonita, né?”. Não sei se vocês conseguem perceber o quão machista é esta frase. Eu mesma, que procuro machismos em propagandas, letras de músicas, livros, revistas e falas de todos ao meu redor, não tinha notado. Por que damos tanto valor a beleza feminina?

Por que parece que uma mulher bonita tem direito a ser péssima em todos os outros quesitos da personalidade dela? Por que quem é bonita se dá bem? Consegue emprego? Ah, ela é bonita, assim fica fácil. Já ouvi Carlos Costa dizendo que mulher bonita tem mais chance de sucesso do que qualquer outro tipo de ser humano. E é senso comum, não é?

E por que isso? Por que a gente deixa isso? Por que não fica brava, por que não fica indignada? Por que não reclama? E não só nós, mulheres, que somos “obrigadas” a sair de casa arrumadas, de maquiagem, de salto, – “nunca se sabe quem você pode encontrar na padaria…”; “seu amor pode estar em qualquer lugar”; “você tem que estar preparada para todas as situações”; ECA! –mas os homens também que, neste jogo, são tantas vezes prejudicados! Por que, afinal, não obtemos coisas por mérito? E por que não reivindicamos nosso direito de obter coisas por sermos competentes?

Vamos a musica de Kelly Key. Um tratado. “Eu vou passar batom, eu vou ficar bonita, eu vou rebolar, eu vou rebolar, eu vou rebolar”. Preciso dizer alguma coisa? E que atire a primeira pedra quem nunca se percebeu falando alguma coisa do tipo. Por que somos tão machistas e não percebemos? E o que temos que fazer para mudar isso?

 

Ps: G3B4#

Agosto 11, 2009

Sobre os outros.

As pessoas não sabem o que é ser amigo. Eu mesma não sabia. Nos últimos meses, porém, aprendi pela negação. Precisei dos outros e não os tive. Sempre fui do tipo de ser humano que constrói muros em volta de si na esperança de que alguém tenha vontade de escalá-los. Ninguém quis. Normalmente reformaria minha casa dentro destes muros mesmo, mas dessa vez não. Desta vez fiquei nitidamente vulnerável, em vão. Não me estenderam a mão como esperava que fizessem – não me estenderam a mão como provavelmente eu teria feito se fosse o contrário. Demorei mais tempo para me estabelecer, mas o fiz. Encontrei – com consciência da delicadeza dele – um lugar dentro de mim no qual me sinto em casa. Mas este texto não é sobre mim, é sobre os outros.

Desconheci meus conhecidos. Percebi que não estavam dispostos a me dar o mínimo que esperava. Pensando bem, não é “disposição” a palavra, é “disponibilidade”, ou as duas.

Após toda crise, porém, há descobertas. Acredito mais do que nunca na solidariedade. Acredito na compaixão, acredito no amor despretensioso, acredito na amizade. E acho os quatro bem parecidos. Querer bem, fazer bem, importar-se com o outro, doar-se ao outro. Tudo isto, sem esperar nada em troca e sem fazer por obrigação, mas por Amor.

Há quanto tempo você não visita alguém porque ele está doente ou triste? Há quanto tempo você não se devota a alguém sem esperar algo em troca? Há quanto tempo você não pergunta, querendo realmente ouvir a resposta, como alguém está? Há quanto tempo você não olha nos olhos de alguém – poderia facilmente terminar a pergunta por aqui, as pessoas não se olham mais – e percebe se ela está feliz ou triste? E você se sente sozinho, afinal, ninguém faz isto por você também. A questão é exatamente esta. Você não faz pelos outros, nem os outros fazem por você. Quem não está bem, que finja que está ou que se esconda.

Não sei se é por causa da sociedade ou por causa da vida que levamos ou por causa da filosofia que ouvimos todos os dias, mas uma coisa tem de ser dita: fazer algo pelo outro não é pecado. Não estou falando de nada material. Interessar-se, ouvir, fazer um agrado, doar-se, uma companhia! não dói. Mesmo que os outros sejam incapazes de fazer o mesmo por você. Em algum lugar este processo tem que começar.

Estou farta do pragmatismo nas relações. Somos seres humanos, não negócios. Estou farta daqueles que acreditam que amizade é estar ao mesmo tempo no mesmo lugar e só, daqueles que não se esforçam. Tenho consciência de que não podemos suprir as ausências inatas um dos outros, mas sei que podemos nos fazer companhia. Um carinho não vai resolver problemas, mas vai dar forças para encará-lo.

O outro é uma fonte. Uma fonte maravilhosa de acertos e erros, de qualidades, defeitos, opiniões, informações. E o outro não me deve nada, não me deve atenção, não me deve carinho, não me deve um conselho, não me deve satisfação, não me deve uma conversa, uma sopa quando estou doente ou um cafuné quando estou triste. Mas, se a pessoa me conquistou por algum motivo, vou fazer tudo isto por ela. Muito mais do que tornar-se responsável por aquilo que cativa, amar. O amor é importante, porra. Nós não sabemos amar. Talvez por causa do msn ligado 24h, talvez por causa do olhar blasé no metrô, talvez por que não dê lucro, talvez porque amar demande tempo, esforço, atenção. Amar não é fácil.

Entre mortos e feridos, lamento o fim da amizade mais intensa que já vivi. Aprendi, a duras penas, que tudo tem um fim. Notei que o nosso chegou e não posso garantir com certeza de que isso não me magoe. Quando precisei, ela não veio comer brigadeiro e ver filmes tristes comigo e exigiu que eu o fizesse quando coisas mais leves aconteceram com ela. Fiz de bom grado e ela sumiu, mais uma vez, mesmo sabendo o quanto ainda precisava de seu carinho. O amor despretensioso existiu, meu amor por ela existiu, foi bom que ele existiu. As coisas têm fim. As fases, as pessoas, os momentos. Mas eles existem. E isto já basta, não é preciso perpetuá-los só por perpetuá-los. Que sejamos eternos enquanto duremos. Intensos, mas perecíveis.

Em compensação, brindo aos novos votos de amizade e lealdade. Brindo também aos renovados. Minhas relações com os outros seres humanos sempre foram calcadas pela liberdade e, enquanto formos leais, elas ainda terão o porquê de existir.

Quanto aos outros, no que tange a mim, pretendo ser intensa – ainda que perecível- e doar-me para lhes fazer companhia. Ser responsável por aquilo que me cativou, amar aceitando os possíveis riscos e esforços. Mas este texto não é sobre mim, é sobre vocês, os outros.

 

Ps: texto grande. Não será lido por muitos. Não terão disposição … ou disponibilidade.

Agosto 10, 2009

A vida é equilíbrio. A vida é equilíbrio?

Hora de tornar conhecidos aqueles rostos inéditos. Vejo beleza no processo de conhecer alguém.

Conversava com um rapaz bonito, 21 anos, lingüista. Interessante, inteligente e, acima de tudo, simpático. Explicava-me que não gostava de nossos colegas da FFLCH – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – por considerá-los radicais demais.

- A vida é equilíbrio, disse.

Eu, com essa obsessão de querer agradar ou com a necessidade de tempo para reflexão, não sei bem qual dos dois, respondi rápido e com um sorriso:

- A vida é equilíbrio.

Ouvi vozes ainda não identificadas aos rostos:

- Fecha a janela?

- Não, deixa aberta, vamos correr, vai ficar calor.

Respondi, em parte usando o humor para disfarçar minha vergonha e em parte porque precisava de tempo para pensar:

- Deixa uma aberta e outra fechada, a vida é equilíbrio.

As pessoas riram – não era a única tímida – mas não consegui esquecer. A vida é equilíbrio?

Concordo que não haja bom ou mau. Há isso e aquilo, nenhum é melhor ou pior. Há o que é pertinente a cada momento. Felicidade é gostosa, mas a tristeza também tem suas qualidades. Nenhuma em excesso é benéfica. Ok, a vida é equilíbrio.

Mas vale a pena ser equilibrado o tempo todo? Não é lindo morrer de amor? Não é lindo ver a melancolia de alguém em um ônibus lotado? Não é lindo estar melancólico num ônibus lotado? O que tem mais beleza do que alguém que pensa em suicídio? Alguém que ama a vida com todas as suas forças, não? Por que, no fundo, esses dois extremos são exatamente o mesmo. O extremo é essencial. Se não existissem os radicais, não haveria o equilíbrio. O claro e o escuro não necessitam da penumbra, mas a penumbra, sim, esta necessita do claro e do escuro. Não, a vida não é equilíbrio. A vida é muito mais do que frases de efeitos.