As pessoas não sabem o que é ser amigo. Eu mesma não sabia. Nos últimos meses, porém, aprendi pela negação. Precisei dos outros e não os tive. Sempre fui do tipo de ser humano que constrói muros em volta de si na esperança de que alguém tenha vontade de escalá-los. Ninguém quis. Normalmente reformaria minha casa dentro destes muros mesmo, mas dessa vez não. Desta vez fiquei nitidamente vulnerável, em vão. Não me estenderam a mão como esperava que fizessem – não me estenderam a mão como provavelmente eu teria feito se fosse o contrário. Demorei mais tempo para me estabelecer, mas o fiz. Encontrei – com consciência da delicadeza dele – um lugar dentro de mim no qual me sinto em casa. Mas este texto não é sobre mim, é sobre os outros.
Desconheci meus conhecidos. Percebi que não estavam dispostos a me dar o mínimo que esperava. Pensando bem, não é “disposição” a palavra, é “disponibilidade”, ou as duas.
Após toda crise, porém, há descobertas. Acredito mais do que nunca na solidariedade. Acredito na compaixão, acredito no amor despretensioso, acredito na amizade. E acho os quatro bem parecidos. Querer bem, fazer bem, importar-se com o outro, doar-se ao outro. Tudo isto, sem esperar nada em troca e sem fazer por obrigação, mas por Amor.
Há quanto tempo você não visita alguém porque ele está doente ou triste? Há quanto tempo você não se devota a alguém sem esperar algo em troca? Há quanto tempo você não pergunta, querendo realmente ouvir a resposta, como alguém está? Há quanto tempo você não olha nos olhos de alguém – poderia facilmente terminar a pergunta por aqui, as pessoas não se olham mais – e percebe se ela está feliz ou triste? E você se sente sozinho, afinal, ninguém faz isto por você também. A questão é exatamente esta. Você não faz pelos outros, nem os outros fazem por você. Quem não está bem, que finja que está ou que se esconda.
Não sei se é por causa da sociedade ou por causa da vida que levamos ou por causa da filosofia que ouvimos todos os dias, mas uma coisa tem de ser dita: fazer algo pelo outro não é pecado. Não estou falando de nada material. Interessar-se, ouvir, fazer um agrado, doar-se, uma companhia! não dói. Mesmo que os outros sejam incapazes de fazer o mesmo por você. Em algum lugar este processo tem que começar.
Estou farta do pragmatismo nas relações. Somos seres humanos, não negócios. Estou farta daqueles que acreditam que amizade é estar ao mesmo tempo no mesmo lugar e só, daqueles que não se esforçam. Tenho consciência de que não podemos suprir as ausências inatas um dos outros, mas sei que podemos nos fazer companhia. Um carinho não vai resolver problemas, mas vai dar forças para encará-lo.
O outro é uma fonte. Uma fonte maravilhosa de acertos e erros, de qualidades, defeitos, opiniões, informações. E o outro não me deve nada, não me deve atenção, não me deve carinho, não me deve um conselho, não me deve satisfação, não me deve uma conversa, uma sopa quando estou doente ou um cafuné quando estou triste. Mas, se a pessoa me conquistou por algum motivo, vou fazer tudo isto por ela. Muito mais do que tornar-se responsável por aquilo que cativa, amar. O amor é importante, porra. Nós não sabemos amar. Talvez por causa do msn ligado 24h, talvez por causa do olhar blasé no metrô, talvez por que não dê lucro, talvez porque amar demande tempo, esforço, atenção. Amar não é fácil.
Entre mortos e feridos, lamento o fim da amizade mais intensa que já vivi. Aprendi, a duras penas, que tudo tem um fim. Notei que o nosso chegou e não posso garantir com certeza de que isso não me magoe. Quando precisei, ela não veio comer brigadeiro e ver filmes tristes comigo e exigiu que eu o fizesse quando coisas mais leves aconteceram com ela. Fiz de bom grado e ela sumiu, mais uma vez, mesmo sabendo o quanto ainda precisava de seu carinho. O amor despretensioso existiu, meu amor por ela existiu, foi bom que ele existiu. As coisas têm fim. As fases, as pessoas, os momentos. Mas eles existem. E isto já basta, não é preciso perpetuá-los só por perpetuá-los. Que sejamos eternos enquanto duremos. Intensos, mas perecíveis.
Em compensação, brindo aos novos votos de amizade e lealdade. Brindo também aos renovados. Minhas relações com os outros seres humanos sempre foram calcadas pela liberdade e, enquanto formos leais, elas ainda terão o porquê de existir.
Quanto aos outros, no que tange a mim, pretendo ser intensa – ainda que perecível- e doar-me para lhes fazer companhia. Ser responsável por aquilo que me cativou, amar aceitando os possíveis riscos e esforços. Mas este texto não é sobre mim, é sobre vocês, os outros.
Ps: texto grande. Não será lido por muitos. Não terão disposição … ou disponibilidade.